Quando saímos o Coelho já avisou que a viagem poderia ser demorada (como se eu já não o conhecesse e soubesse que é ÓBVIO que seria demorada). Nós saímos de Canoinhas-SC por volta das 17 horas da sexta-feira com destino a Ubiratã-PR. Tudo ia bem, apesar do caminhão não parecer ir tão bem já que no caso, me parecia que a dona Tartaruga iria mesmo ganhar a corrida com aquele "Coelho". Mas é claro que pra isso a Tartaruga precisaria ir um pouco mais devagar, senão nós nos transformaríamos em retardatários logo logo.
É lógico que como havia uma mudança em cima da carroceria (e era minha) ele deveria mesmo tomar cuidado. Problema é que o cuidado dele envolve pelo menos umas 10 horas a mais de viagem. Tinha horas que eu até parecia ver um capacete de automobilismo na cabeça dele e isso ocorria toda hora que ele se empolgava e começava a "correr" a uns 60 km por hora (Rrrrrrubens, rrrrrrubens, rrrrrrrrubens Barrichelo do Brasil!!!). E lá íamos nós sendo ultrapassados por carros, motos, outros caminhões e acho que até algumas árvores pareciam estar nos ultrapassando. Claro que eu poderia estar sendo enganado pelo sono (ou pelas árvores mesmo). Quando penso em alguém escondido, logo penso em alguém escondido e saindo de trás duma árvore gritando: "Surpresa!!!" Daí tentei não imaginar uma árvore saindo detrás de outra árvore e gritando: "Surpresa!!"
E se o sono já me fazia mal (e com a insônia que eu tenho, era óbvio que o sono ainda ia me incomodar muito), a fome também começava a cooperar para meus delírios e desespero. Começou a escurecer e enquanto o caminhão aparentemente se locomovia eu dava umas "pescadas" e parecia que iria dormir. O "movimento" do caminhão parecia estar me embalando e me fazendo aproveitar o sono para esquecer a fome. Duro é que ninguém viaja sem conversar com o "carona". O Coelho sempre perguntava ou afirmava alguma coisa, mas sempre esperando que eu dissesse algo. Claro que na maioria do tempo o "algo" que eu dizia era no máximo um "uhum" ou um "é". Creio que pra ele isso já era suficiente. Se não era, ele não reclamou e eu não mudei em nada minhas frases monossilábicas. Só disse algo mais quando, por volta das 20:45 chegamos em frente a um restaurante que tinha o atendimento e a comida de um boteco, mas com os preços de um restaurante francês. O Coelho perguntou:
-Vamos jantar agora?
-Vamos sim. (Topo, topo. Por que não? Vamo caí pa dentro!)
Adentramos o recinto já com certeza de que não iríamos comer tanto assim. Era dia do último capítulo da novela Caminho das Índias (tá, tá, tá, eu sei) e eu realmente queria assistir. Fazer o quê? Eu estava sozinho em casa nas últimas duas semanas, desempregado e sem ter o que fazer, resolvi assistir a novela e é claro que eu queria ver o último capítulo. Consegui assistir o comecinho, mas o volume da TV estava muito baixo e ficava difícil, pois leitura labial realmente não é meu forte. Mas tentava com todo o esforço possível ouvir os "are babas" e outras coisas ditas ali, mas eis que chega uma turma de argentinos (sem preconceitos, mas só podia, só podia) numa gritaria absurda.
Eles conversavam tanto e sobre tantos assunto e tão rápido e com tanta empolgação e com tanto volume e com tanta vontade de ser ouvidos, que pra mim aquilo era parecido com um show de rock. Um show de rock argentino e ruim, mas com o volume no talo. Com isso tudo, é claro que a minha intenção de assistir o último capítulo da novela já era. Fazer o quê? Teria que assistir a reprise no sábado, caso desse tempo de chegarmos antes da novela ter começado (ou terminado).
Aproveitei o período que convivi com colombianos na pensão em Canoinhas-SC para tentar entender o que diziam ali. Eu entendia algumas pouquíssimas palavras, pois além de eles falarem um pouco diferente dos colombianos, eles não estavam conversando comigo, portanto não falavam devagar e nem repetiam o que eu não entendesse. No geral o que eu consegui entender era algo como:
-Usted sabrionbla que una estatorfjlmaniiuruhfyroepskanirpqrs?
-Sí, pero no mucho!
-Es una heuorkpojodbvlvpioryuepwçslroinasd...
-Rá, rá, rá, rá... (Aliás: RÁ, RÁ, RÁ, RÁ, RÁ, RÁ, RÁ...)
Realmente não dava pra eu entender. Se eu me esforçasse mais, eles com certeza iam perceber que eu estava tentando ouvir a conversa e provavelmente iriam me perguntar "por que eu tava encarando?" e eu provavelmente não iria entender e teria que encarar ainda mais para tentar entender e no fim das contas a velha rixa entre Brasil e Argentina se transformaria numa nova rixa entre Brasil e Argentina. Isso é realmente algo que eu não queria, pois eles estavam em maior número e com a força que eu tenho em meus músculos, eu já apanharia de um, imagine de quatro. Aliás, quero dizer de quatro argentinos, pois ao dizer que "apanharia de quatro" poderia transformar este post num problema para minha masculinidade.
Comemos aquele arroz, feijão e carne de frango (com carne de boi seria mais caro) e fomos pagar. O Coelho tomou um cafezinho (que não era gratuito) e depois de sermos esfaqueados por aquela conta, resolvemos seguir viagem. Poucos quilômetros (ou metros, perdi a noção de velocidade-espaço-tempo) depois encontramos uma cidade. Entramos na cidade seguimos, seguimos, seguimos, seguimos e eu notei que estávamos seguindo demais. O Coelho também notou isso. De acordo com ele nós "entramos em alguma rua que não devíamos". A viagem já seria longa e com esse pequeno desvio no nosso trecho eu só consegui pensar uma coisa:
-Me fudi! Certeza que não assisto nem a reprise da novela!
Mas calma, amigo leitor. Ainda acontece muita coisa nessa viagem, portanto fique agora com as cenas do próximo capítulo:
"É por ali senhor, me siga!"
"Uma cerração que parecia sólida..."
"Algumas pessoas dormem com silêncio, outras com barulho e outras, como eu, não dormem..."
"Caramba! Nunca pensei que um energético era tão caro."
Quer ver o novo Freddy Krueger?
48 minutos atrás
4 ,18% comentex:
Mas afinal, você apanhou de quatro ou não (aindasobefeitodotextodeescritaesexodoRob mode: on).
Essa história ainda vai render. Até aqui já está incrível. Digna de uma saga heróica...(rs)
UAU... mto joia vamo ve como vai ser as proximas... melhor ainda se for rapido assim como estes posts..rsrsrs
muito bom!!!
OK, a desgraça alheia é menos dolorida, mas o seu texto ficou genial!
Abraçs
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